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Por Francisco Dal Fabbro – Sócio e Assessor de investimentos 

O que é essa tal de “duration” que os gestores de renda fixa falam?

 Acredito que, assim como eu, ultimamente muito de vocês também têm assistido inúmeras “lives” e lido diversas cartas de gestores de fundos de investimentos. Importante sempre estar bem atualizado e a par das estratégias por trás de nossos investimentos, afinal estamos lidando com nosso suado dinheiro e temos de tratá-lo bem, não é mesmo?

 Neste mar de informações, é comum lermos ou ouvirmos frases como esta:
“Atualmente nosso fundo x tem uma duration de 2,4 anos e um carrego  de CDI+2,1%”.

 Mas o que o gestor quer dizer com isso e qual a importância disso para os investimentos?

Sobre o “carrego”, discutiremos em um próximo artigo, porém gostaria de dedicar algumas linhas para explicar o que é Duration.

 Em finanças, podemos definir a duration de um título de renda fixa como sendo o prazo médio que o detentor do papel levará para receber o valor investido de volta. Seu uso mais frequente é como medida da sensibilidade do preço de um título à variação das taxas de juros praticadas no mercado. O seu cálculo não é complicado e sua fórmula é facilmente encontrada na internet, no entanto, gostaria de focar aqui no conceito e como podemos utilizá-lo.

 Sabemos que o preço de um título de renda fixa é inversamente proporcional a taxa de juros, ou seja, quando a taxa sobe, o preço cai e quando a taxa cai, o preço sobe, certo? Mas qual é essa proporção?

 Grosso modo podemos afirmar que, para pequenas variações, a cada x% de mudança da taxa de juros (para cima ou para baixo) o preço do título irá variar x% aproximadamente na direção contrária para cada ano de duration.

 Exemplo: o preço de mercado de um título de renda fixa com duration de 5 anos irá cair aproximadamente 5% se a taxa de juros subir 1% (1% x 5 anos).

 Embora seja uma aproximação grosseira, essa simplificação atende muito bem nossas necessidades imediatas. Para um cálculo mais preciso deveríamos levar em conta a duration modificada e convexidade, conceitos que extrapolam nosso escopo aqui.

 Isto posto, usando a duration, podemos estimar a variação percentual do preço do papel dada uma certa variação da taxa. O que nos dá uma boa noção da volatilidade ou risco de mercado de um título de renda fixa. Podemos dizer então que quanto maior a duration, maior a volatilidade e consequentemente, o risco de mercado.

 Importante ressaltar que maior volatilidade ou maior risco não é necessariamente ruim, pois a contrapartida é uma maior possibilidade de retorno no caso de a mudança estar a seu favor. Cada investidor tem uma tolerância diferente ao risco e o que serve para um, não necessariamente serve a outro.

 Outro aspecto importante é não confundir duration com o vencimento ou “time to maturity” de um título de renda fixa. O vencimento é fixo e conhecido na contratação do papel, mas a duration se modifica em função das taxas de juros e eventos de pagamentos de cupons e amortizações. Entretanto, para papeis que não tem pagamentos intermediários, a duration é igual ao tempo que falta para seu vencimento.

Mas qual a aplicação prática da duration?

Como dito acima, duration mede a sensibilidade de um título à variação das taxas de juros praticadas, portanto um uso comum da duration é para comparar papeis com taxas e fluxos de pagamento diferentes com relação ao risco de flutuação de preço durante sua vida devido a mudanças nas taxas de juros no período.

 Outra aplicação é na imunização de uma carteira de renda fixa, ou seja não permitir que ocorra o descasamento entre ativos e passivos de uma carteira em virtude da variação da taxa de juros. Muito usado por gestores de fundos e tesouraria de bancos e empresas. Se as durations dos de ativos e passivos são equivalentes, uma mudança da taxa de juros que ocasionaria uma variação dos valores de um, seria compensada pela mesma variação em sentido contrário nos valores do outro, mitigando assim o risco de descasamento.

 Um fundo de investimento de renda fixa tem em sua carteira vários papeis com diferentes fluxos de pagamento, taxas e vencimentos e, portanto, é possível calcular a duration da carteira do fundo como um todo, consequentemente estimar sua volatilidade e risco devido a variações nos preços a mercado dos papeis que compõe sua carteira. Um fundo com duration mais longa, tem maior potencial de retorno se a tendência é de redução nas taxas de juros e spreads, por outro lado, pode balançar bastante no caso de mudanças bruscas do humor do mercado, ou seja, é mais volátil. 

 Vimos aqui então a relevância do conceito de duration na gestão de títulos de renda fixa. Verifique como está a sua carteira com relação a duration de seus papeis e na próxima vez que for aplicar em renda fixa, seja diretamente no papel ou em fundo de investimentos, pergunte antes ao seu gerente ou assessor qual a duration do mesmo para melhor poder comparar as opções, balanceando assim risco e retorno.

 

ARTIGO PUBLICADO EM 22/09/2020

Os fundos de renda fixa DI não rendem mais como antes. E agora?

 Basta entrar no Youtube ou dar um Google básico que você vai dar de cara com um monte de gente falando e profetizando sobre o fim da renda fixa, dizendo que o CDI morreu, que para ter ganhos não há outra forma a não ser correr riscos na bolsa e blá, blá, blá. Concordo, mas em parte. Ganho e risco andam juntos e Bolsa de Valores é um caminho, mas não o único. Dizer que a renda fixa morreu é uma forma simplificada de abordar o fato de que não é mais possível ter altos ganhos, com liquidez e sem riscos ao mesmo tempo.

Então, o que fazer?

 Antigamente, bastava entregar seu dinheiro ao gerente do banco, pedir para aplicar em um fundo DI ou naquela compromissada diária e pronto! Dava para pagar as contas do mês só com os rendimentos e ainda ter ganhos reais praticamente sem risco. Isso já não existe mais, morreu!  Porém, os ativos de renda fixa, sejam eles na forma de títulos públicos, privados ou de fundos de investimento, continuam mais vivos do que nunca e têm um papel importantíssimo em uma carteira de investimentos equilibrada.

 Quando disse que concordava em parte com a afirmação de que para ter ganhos reais é necessário correr mais risco, foi porque, não só na renda variável é possível ter bons ganhos. Renda fixa também pode proporcionar retornos interessantes sem que para isso seja preciso ter posições em bolsa ou fundos de ações.

 Vale ressaltar, no entanto, que mesmo para investidores mais conservadores pode ser interessante ter uma parcela do portfólio com exposição a renda variável, contanto que sejam respeitadas as características individuais, objetivos e prazos de cada investidor – algo que chamamos de “suitability”.

 Mas, deixemos o assunto “renda variável” de lado e foquemos em “renda fixa”. Como obter ganhos reais com liquidez e risco adequados nessa classe de ativos?

 Podemos definir a renda fixa como um investimento que paga uma taxa fixa pré-definida de retorno com um cronograma de pagamentos também fixo e conhecido a frente. Estes pagamentos podem ser feitos em uma única vez, pagando os juros acumulados e o principal juntos, ou com pagamentos de juros e amortizações do principal ao longo da vida do papel em datas pré-definidas na forma de renda.

 Além de um título de renda fixa poder ser público ou privado, o que nos dá uma noção do risco de crédito (ou de calote, dependendo do ponto de vista), podemos classificar a renda fixa pela forma como remunera o investimento e calcula a acumulação dos juros. Essa remuneração pode ser pós-fixada, pré-fixada ou com uma taxa sobre um índice de correção, normalmente o IPCA.

 Os papeis que são pós-fixados têm seu valor reajustado diariamente pela taxa Selic ou CDI (que agora estão idênticas) e, portanto, têm pouco risco de variação inesperada no seu preço. Como o CDI está rodando a taxas muito baixas que não cobrem nem a inflação, não se esperam grandes rendimentos no pós-fixado. Ainda assim, eles não estão mortos, pois são ideais para a reserva de emergência ou para cumprir compromissos com datas e valores definidos.

 Os pré-fixados, por sua vez, são papeis em que já se sabe antecipadamente a remuneração a ser recebida, seja ela através pagamentos periódicos, no caso de papeis que pagam cupons, ou de uma única vez no vencimento.

 Excluído o risco de calote, que deve ser avaliado à parte, o risco do pré-fixado está justamente no que ocorre com as expectativas do mercado entre o momento da compra e do vencimento. Se pensarmos que os juros são o preço do dinheiro no tempo e que eles refletem as incertezas do mercado no período, incluindo aqui as incertezas com relação a inflação futura e as intervenções do Banco Central na taxa básica de juros, quanto maiores forem essas incertezas em um determinado momento, entre a compra e o vencimento de um título pré-fixado, maior será o desconto requerido pelo mercado para comprar o papel, e menor o preço naquele momento, já que os valores dos pagamentos são fixos.

 Ou seja, se os juros/incertezas sobem, o preço de mercado de um título pré-fixado, cai. Da mesma forma, quando baixam, o preço sobe. Então, podemos dizer que a renda é fixa, mas o preço varia. Guarde este conceito por um instante. Já voltaremos nele.

 O terceiro tipo de remuneração da renda fixa são os papeis que pagam a correção da inflação, normalmente o IPCA, mais uma taxa pré-fixada. Podemos dizer que são uma espécie de renda fixa híbrida, pois têm um componente pós-fixado, o IPCA, e um outro pré-fixado. Esses papeis, assim como os pré-fixados puros, também podem pagar juros e amortizações periodicamente ou somente no vencimento, e da mesma forma, podem sofrer variações de preço durante sua vida. Porém como removemos uma das incertezas, a inflação, seu preço varia menos, dado uma mesma duração.

 Voltemos ao fato de que o valor presente do papel de renda fixa pode variar até seu vencimento. Há uma dúvida de qual será o preço justo em uma determinada data e se ao final será suficiente para remunerar o investimento. Portanto, é natural que exista um prêmio intrínseco contratado na compra do papel para compensar este risco. É este prêmio que iremos capturar se o cenário previsto vai na direção imaginada desde a compra até o vencimento. Mais ainda, se as incertezas do mercado arrefecem, podemos ganhar além do prêmio contratado no início, um valor adicional no eventual incremento de preço obtido com a variação das taxas de juros de mercado, como descrito acima, caso saiamos antes do vencimento.

 Parece complexo, e pode ser mesmo. Por isso muitas vezes delegamos aos gestores de fundos todas essas análises. Eles devem escolher os melhores papeis e os momentos corretos de entrar e sair. Eles são profissionais e são remunerados para isso por meio das taxas de administração e performance.

 Conclusão: Não é correto generalizar que a renda fixa morreu. Ela continua sendo uma importante classe de ativos que deve fazer parte da carteira de todos os investidores. Prova disso é que, mesmo com taxas de juros muito baixas ou mesmo negativas, o mercado de renda fixa no mundo continua pujante. O que morreu, e isso sim não existe mais, foi a vida fácil dos rentistas nos fundos e papeis pós-fixados baseados em percentual do CDI. É necessário correr algum tipo de risco e a renda fixa proporciona oportunidades de bons retornos com riscos condizentes.

Vida longa à renda fixa!

 

ARTIGO PUBLICADO EM 01/09/2020